domingo, 24 de outubro de 2010

Sobre o dia em que eu deveria ter chamado um táxi

Sábado, 23 de outubro de 2010, 16h10min, urgência do Hospital Jean-Talon, Montréal. Acompanhada do meu marido, chego em meio a uma angustiante crise de alergia ao terceiro andar do prédio de velhas instalações.

No longo corredor, eu me deparo com outras dezenas de doentes que disputam espaço enquanto esperam sua hora, incerta, de ver um médico, o único que atende o andar inteiro. Cinco ou seis macas ocupadas estão encostadas a uma das paredes do local pelo qual também chegam as urgências atendidas pelas ambulâncias. Essas, que representam os casos mais graves, como acidentes de trânsito, por exemplo, ganham a prioridade logo ao chegarem.

Não há cadeiras para todo mundo. Muita gente circula em cadeiras de roda. Os enfermeiros e socorristas tentam caminhar o mais rápido que podem entre tanta aglomeração. Com um biombo, um quarto com três ou quatro macas é improvisado a um canto onde o corredor se abre para uma pequena sala de espera. Os doentes acamados tentam dormir sob o som da televisão que transmite o jogo de hóquei do Canadiens contra Ottawa. 3X0 para o Canadiens.

Minha espera vai ser longa. Incrivelmente longa. Após os primeiros quarenta minutos em pé nesse corredor, meu número é chamado por um dos enfermeiros que fazem a triagem dos pacientes. Esse é o quarto número anunciado em quase 60 minutos. Minha pré-consulta se faz ali mesmo, no corredor, diante de um computador instalado ao fundo, perto da janela.

O enfermeiro mede minha pressão e verifica se estou com febre. Tudo normal. Ele quer saber por que estou ali. Nao posso me despir no corredor e mostrar os vergões que se formaram pelo corpo todo. Faço o que posso para que ele entenda que não aguento mais o incômodo que vinha há uma semana, mais ou menos, me tirando o sono e o sorriso.

Triagem feita. Agora é SÓ aguardar que chamem meu nome. Antes de achar um lugar na saleta de espera, faço minha "inscrição" no Hospital Jean-Talon. A abertura do dossiê é rápida. Às 17h, já estou sentada junto a pessoas com dor e impacientes pelo diagnóstico do médico. Algumas chegaram pelo meio-dia. Outras, pela manhã. Uma mulher jovem, sentada a um canto, sofre. Aparentemente, ela tem pedras nos rins e parece estar grávida. O marido ou namorado ajuda como pode, massageando as costas da companheira.

Um senhor chega à sala com um café em mãos. Olha para o relógio de pulso e pronuncia a hora em voz alta antes de se sentar. Ele vai falar alto e criticar o sistema pelas próximas 7 horas mais ou menos. Até cansar. Tá todo mundo exausto. E eu me arrependendo de ter procurado ajuda. Talvez seria melhor ter tentado aguentar minha crise alérgica em casa, como fiz durante a semana toda.

Às 18h, meu marido decide ir embora. Ele é québécois e sabe que, talvez, com sorte, eu seja atendida por volta da meia-noite. Ele não tem mesmo que esperar ali. Seria bom ter companhia, mas, ao mesmo tempo, só quem realmente precisa é que aguenta ou tenta como pode ficar nesse inferno. Tento estudar para minha prova de segunda-feira na universidade. Não consigo me concentrar.

Ouvem-se os gritos de um homem ao fundo do corredor. E o hospital emite um código que eu não entendo. Muitos enfermeiros e assistentes correm na mesma direção. Uma mulher vomita ali perto, no banheiro do corredor, com a porta aberta. Ouço línguas incompreensíveis naquela Babilônia bagunçada. O senhor do café, supercomunicativo, relata a um casal todo seu histórico médico e reza a cada 30 minutos para que Deus lhe dê paciência. "Mas que faça isso rápido".

É começo da noite de sábado. Já escureceu lá fora. Para o desespero dos que ali na urgência já estavam, mais macas com doentes de todos os cantos de Montréal são trazidas pelas ambulâncias. Elas logo começam a se acumular em fila diante da porta da enfermeira que faz a triagem. Também há policiais que acompanham um dos casos. Acidente de trânsito ou, talvez, uma briga. Não quero saber.

Pelas 22h, essa mesma enfermeira faz uma chamada para confirmar quem ainda está resistindo ali para ver os agora dois médicos (!!!) de plantão. Ela me chama e me apresento. Ela pergunta como estou me sentindo. Respondo que minha crise se agravou. Tenho reação alérgica no rosto. Ela diz que eu posso voltar a me sentar e aguardar.

De volta à "minha" cadeira desconfortável, jogo minha bolsa ao chão. Abaixo minha cabeça e abraço os joelhos. Tenho vontade de chorar. Pouco antes da meia-noite, duas amigas, mãe e filha também gaúchas - e solidárias, chegam à sala onde estou para me fazer companhia. Gabi e Márcia, nunca mais vou me esquecer desse gesto! Muuuuuuuito obrigada.

A gente tenta desopilar, bater-papo, trocar impressões sobre esse sistema de saúde tão caótico num país, dito, de primeiro mundo. Em princípio, o sistema de saúde é gratuito para todos os canadenses e residentes permanentes, como é meu caso. São raras as clínicas privadas. O princípio é de que todos, pobres e ricos, são iguais em situação de doença.

Mas faltam médicos. Muitos diplomados aqui partem para fazer grana nos Estados Unidos. Os doutores imigrantes mais insistentes chegam a passar 15 anos tentando ter o diploma reconhecido. O humor negro representa a situação com a seguinte piada: "Quer um médico? Chama um táxi". Afinal, não são poucos os que abandonaram o estetoscópio pelo volante.

As enfermeiras sobrecarregadíssimas também estão migrando do sistema público para o privado. A mídia vive batendo na mesma tecla: mostra a superlotação nos corredores e denuncia a máquina burocrática que tenta administrar esse sistema. O governo é apático. O filme québécois Invasoes Bárbaras, de Denys Arcand (2003), retrata bem esse caos. Ontem, soube que a imprensa daqui noticiava uma espera média de até 20 horas pelos pacientes nas urgências dos hospitais de Montréal.

Pouco depois da meia-noite, uma enfermeira toda-sorrisos chega a nossa sala para se apresentar. Ela dá a entender que vamos passar a madrugada juntos, mesmo que ela saiba que boa parte de toda aquela gente está há 8, 10, 12 horas esperando. E aí ela descreve o cenário da hora: só há um médico para atender casos de emergência, os acamados e nós. Precisamos ser um pouco mais pacientes e considerarmos que temos chances de ser atendidos somente pelas 5h ou 6h da manhã de domingo.

Mas ela encerra o papo com um comentário, no mínimo, estúpido. Caso alguém não esteja se sentindo bem, pode bater à porta dela. Eu levanto a mão e digo que não estou bem. Ela ri. E todo mundo na sala de espera também.

À 1h30min, depois de nove horas e meia de espera, ouço meu nome ser chamado. Não acredito! Meu coração quase salta pela boca. É como se tivessem gritado BINGO! e eu sou a ganhadora. Solto um ALELUIA! E me levanto rápido em direção ao consultório. Sou medicada.

Reencontro minhas amigas e meu marido pouco antes das 2h. Estou contente e, ao mesmo tempo, me sentindo culpada. Sei que fui atendida antes de outras pessoas que já estavam ali há muito mais tempo do que eu. A gente corre daquele lugar, onde a mulher que suponho ter dor nos rins ainda está escorada a um canto, gemendo de dor. Já o homem do café, esse perdeu a energia para falar. Finalmente, acho que Deus acabou providenciando a paciência pela qual esse senhor passou o dia rezando.

Na próxima vez (que espero que não chegue nunca), já sei: vou chamar um táxi. Eles sempre chegam rápido.

sábado, 16 de outubro de 2010

Sombra colorida


De repente, a gente se vê aqui com casaco, cachecol, botas e luvas. A cada dia, o sol se põe mais cedo. O vento é frio. Temos dois, três dias consecutivos de chuva. Meu vizinho já não passa mais o dia todo sentado na sacada, à porta de entrada do nosso apê.

É o fim do verão no Canadá. Mas outro forte indício de que minha estação preferida se foi definitivamente está nas árvores. As folhas, antes tão verdinhas, passam a explodir em cores que enchem os olhos até dos mais nostálgicos como eu.


Amarelas, vermelhas, alaranjadas... lindas, lindas, lindas! Da noite para o dia, as folhas de érable (representadas na bandeira do Canadá) ganham cores deslumbrantes antes de se desprenderem dos galhos para cobrir - e colorir - calçadas, ruas, carros, quintais.


É tudo tão efêmero. Quase dá para pensar que alguém, um grande pintor que ninguém nunca viu, passou a noite dando uma pincelada aqui e outra ali para ver o resultado no dia seguinte. Num dia de sol, de preferência, quando o contraste é ainda mais forte.


Mas logo a obra de arte se desfaz.


Cientistas da América do Norte discordam sobre as razões que explicariam essa mudança de cor repentina. Biólogos e fisiologistas da Universidade de Oxford afirmam que o brilho colorido das folhas contém uma mensagem: "Insetos, deixem-me sozinha! Sou uma árvore letal para suas crias". Dessa forma, a árvore estaria se protegendo do depósito de larvas no seu tronco, cujo resultado poderia ser devastador para ela na primavera. É que essas mesmas larvas podem sugar os nutrientes da planta. E talvez, também, seu suposto veneno.


Contudo, pesquisadores da Universidade de Wisconsin preferem a teoria de que as folhas do outono não são nada mais, nada menos do que um protetor solar natural. O colorido das folhas não passaria de uma prova concreta de que as árvores estão fazendo uma intensa reserva de nutrientes para enfrentar o inverno rigoroso. Enquanto a clorofila se desmantela, nitrogênio e fósforo vão para a despensa.


Outros estudiosos resumem o fenômeno meio que chamando as érables de um bando de mascaradas. A clorofila, que dá o tom verde aos vegetais e faz um excelente trabalho na captura da luz solar - mais intensa na primavera e no verão -, estaria escondendo, durante essas estações mais quentes, os outros pigmentos presentes nas folhas. Com a chegada do outono, as árvores quebram sua clorofila e, voilà, a aquarela surge na paisagem.


Enfim, todo mundo concorda em uma coisa: não é por nada que o outono no Canadá é tão bonito.


Minha humilde teoria é a de que a Mãe Natureza sempre resolve nos presentear nessa época do ano, antes que um desolador manto branco cubra tudo e se mantenha assim pelos próximos 5 meses, mais ou menos. Até que a gente volte a se animar em olhar para as árvores de novo e perceber que as primeiras folhinhas verdes começam a despontar. Outro ciclo, então, recomeça.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Força na peruca!

Tenta te lembrar daquele dia em que tu estavas pra baixo, com a auto-confiança no dedão do pé, te sentindo a criatura mais miserável do planeta. Daí, tu falaste com alguém que soube realmente te ouvir (e esse alguém não era tua mãe, nem teu melhor amigo).

Essa pessoa te entendeu e te encorajou. E, com as palavras exatas, chegou no teu coração e ainda por cima fez com que os problemas aparentemente mais angustiantes do momento se tornassem pequenininhos, quase insignificantes, quase uns "ex-problemas".

E tu foste embora leve, pronto a retomar o plano de conquistar o mundo. O teu mundo!

Tu te lembraste de uma situação assim? Claro que sim... E se lembraste é porque momentos como esse são preciosos. E, infelizmente, não menos raros.

Pois nesta semana passei por uma situação dessas, na universidade. As terças-feiras são sempre complicadas para mim. Já acordo cansada, porque as segundas-feiras são igualmente difíceis. Pagar os pecados, quer dizer, trabalhar em tempo integral e estudar em língua estrangeira é realmente exaustivo.

Nos dois primeiros dias da semana, sempre saio de casa às 8h para só voltar ao lar, doce lar pelas 23h, virada na capinha do Batman (eu realmente amo essa expressão, Manu!).

Na terça-feira, eu tava especialmente atucanada. Receberia de volta meu primeiro trabalho do curso de Dificuldades do francês escrito - e põe difícil nisso escrever bem em francês... Tava com medo de ter um resultado decepcionante e, quem sabe, me ver obrigada a abandonar o curso e o programa de tradução da Universidade de Montréal.

Mas eu fui bem no trabalho. Muito bem até, eu diria. Só que eu ainda tinha dúvidas e precisava tomar coragem para ir falar com o professor. Que vergonha! Eu adiei por semanas esse momento.

No Canadá, sou uma aluna completamente diferente do que fui no Brasil. Não solto um pio em sala de aula, onde costumo ser a única não-francófona. Como poderia me fazer entender com meu sotaque - que deve ser lamentável - para um doutor-linguista?

Tinha que contornar isso. Respirei fundo e o fiz. Quando todos meus colegas já tinham ido embora, claro. Acho que meu professor até se surpreendeu de me ver lá, diante dele. "O que será que esse ET com sobrenome estranho tem pra falar comigo?", ele deve ter pensado.

Bem, pra resumir a ópera, obtive as respostas às minhas questões. Quando tava ajeitando tudo na mochila para, enfim, voltar pra casa, ele me perguntou se tava tudo bem comigo. Quase desatei no choro. Juro. Falei sobre o quanto eu andava desencorajada e em dúvida sobre minha decisão de ser tradutora.

Mas com que entusiasmo e firmeza ele me disse que eu deveria continuar! "Abandonner? Jamais. Força na peruca!" Obviamente que essa última frase ele não falou. Mas a mensagem foi mais ou menos essa. Hehehehe...

Pronto, a última pessoa que eu queria ver até então, a cada semana, tinha se mostrado de uma sensibilidade incrível. Quer dizer, ele era a segunda pessoa que eu menos queria ver. Da primeira prefiro não falar agora, porque essa não vale nem a sardinha que come.

Esse cara usou as palavras certas. Um verdadeiro professor...

P.S. - É assim que deixo aqui meu muito obrigado a todos os professores, inclusive os carrascos, com quem tive o privilégio de aprender. Não só sobre teoria, mas também sobre perseverança. Parabéns pelo Dia do Professor! E parabéns pra ti também, mãe, minha eterna mestra.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Festa para os olhos


Vocês sabiam que, ao longo de 12 meses, Montréal conta com mais festivais do que o calendário com dias num ano? Pois é, são mais de 400! Tem festival de jazz, de fogos de artifício, de filmes, de música francófona, de heavy metal, de cerveja, de bicho-de-pé (brincadeirinha... hehehe...) e por aí vai. A lista é imensa.


Pra quem planeja visitar a cidade nessa época do ano ou ainda para aqueles que estão meio perdidos com o fechamento dos terraços e a chegada brusca do frio do outono uma dica é ir ao Jardim Botânico de Montréal. Mas à noite.


Desde o dia 10 de setembro até o dia 31 de outubro, tá rolando o festival La Magie des lanternes ou o tradicional Festival de lanternas chinesas, que coincide com as festividades do Ano Novo lunar chinês. Noturna por excelência, a festa das lanternas é milenar na China. Lá pelo ano 206 antes de Cristo, logo após o cair da noite, adultos e crianças já costumavam dar uma caminhadinha pelas ruas com uma lanterna na mão.


Em Montréal, esse é o décimo oitavo ano que o Jardim Chinês recebe as lanternas produzidas em Shangai, num símbolo de amizade entre essas duas cidades. A cada edição, as lanternas se iluminam sob uma temática diferente. Em 2010, Comme une peinture (Como uma pintura) se inspira na maior obra-prima da pintura tradicional chinesa, o Qing Ming Shang He Tu.


Verdadeiro tesouro nacional chinês, o Qing Ming Shang He Tu foi realizado no ano de 1127 por um pintor da dinastia Song. Sobre um rolo de seda de 5,28 metros, o cara retratou a vida dos habitantes de Bianjing do século XII, período de grande desenvolvimento das cidades chinesas.


Visitante das duas últimas edições, aconselho os interessados em presentar os olhos com esse festival de luz a irem ao Jardim Botânico durante a semana. Nos findis (de tempo bom, claro), tem gente demais e fica difícil fotografar e conferir de perto os detalhes riquíssimos das mais de 700 lanternas em exposição.


Ah! Outra sugestão é que, se possível, se vá acompanhado. Com amigos ou então com o(a) bem-amado(a). Além de tradicional, esse festival também tem um quezinho de romantismo.


P.S. - Excepcionalmente para o Festival de Lanternas, o Jardim Botânico acolhe o público todas as noites até as 21h. E é bom se planejar para, no mínimo, uma hora de visita, incluindo as inevitáveis paradinhas para fotos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Palhaçada


O brasileiro não se leva mesmo a sério ou fui eu que perdi o senso de humor? Fiquei boquiaberta, envergonhada, indignada quando soube da eleição do humorista Tiririca (PR) para deputado federal pelo estado de São Paulo. Desculpem o chavão, mas que palhaçada é essa? Pior ainda é que recebi essa notícia revoltante através da imprensa francófona, que não poupou, claro, no tom sarcástico para divulgar esse "acidente" eleitoral.


Onde já se viu um palhaço analfabeto se eleger com 1,345 milhões de votos, sendo o deputado mais votado do Brasil? Mas antes dessa, vem outra questão, talvez mais pertinente ou mais ingênua, já não sei mais nada. Como se pode aceitar a candidatura de um palhaço desses que nem sabe o que faz exatamente um deputado? Francamente, brasileiros e brasileiras...

E sem falar no Romário! Nem em concentração pra jogo de futebol ele se aguentava. Passaram-se os anos e agora ele vai cumprir direitinho o calendário do Congresso Nacional? Só pode ser piada. Sem graça.

No fim das contas, acho que palhaça mesmo sou eu que tive a magnífica ideia de transferir para o Canadá meu título eleitoral para poder participar do pleito mesmo longe do meu país. Depois de uma hora de "viagem" - esperar ônibus e fazer conexão com metrô em pleno domingo é dose -, cheguei ao Consulado de Montréal para votar. O que não levou nem 30 segundos. Até porque se tem uma coisa que funciona no Brasil é justamente todo esse esquema "democrático" de eleições para que a gente vote obrigatoriamente nos nossos... mmm... representantes políticos.

O resultado desse esquema todo é que é um verdadeiro caos. Com esse slogan "Vote Tiririca, pior que tá não fica", ora, senhor, deputado federal, sinceramente sou obrigada a discordar. Acho que pior não podia ficar. Tá realmente difícil fazer o caminho de volta para o Brasil.