Sábado, 23 de outubro de 2010, 16h10min, urgência do Hospital Jean-Talon, Montréal. Acompanhada do meu marido, chego em meio a uma angustiante crise de alergia ao terceiro andar do prédio de velhas instalações.
No longo corredor, eu me deparo com outras dezenas de doentes que disputam espaço enquanto esperam sua hora, incerta, de ver um médico, o único que atende o andar inteiro. Cinco ou seis macas ocupadas estão encostadas a uma das paredes do local pelo qual também chegam as urgências atendidas pelas ambulâncias. Essas, que representam os casos mais graves, como acidentes de trânsito, por exemplo, ganham a prioridade logo ao chegarem.
Não há cadeiras para todo mundo. Muita gente circula em cadeiras de roda. Os enfermeiros e socorristas tentam caminhar o mais rápido que podem entre tanta aglomeração. Com um biombo, um quarto com três ou quatro macas é improvisado a um canto onde o corredor se abre para uma pequena sala de espera. Os doentes acamados tentam dormir sob o som da televisão que transmite o jogo de hóquei do Canadiens contra Ottawa. 3X0 para o Canadiens.
Minha espera vai ser longa. Incrivelmente longa. Após os primeiros quarenta minutos em pé nesse corredor, meu número é chamado por um dos enfermeiros que fazem a triagem dos pacientes. Esse é o quarto número anunciado em quase 60 minutos. Minha pré-consulta se faz ali mesmo, no corredor, diante de um computador instalado ao fundo, perto da janela.
O enfermeiro mede minha pressão e verifica se estou com febre. Tudo normal. Ele quer saber por que estou ali. Nao posso me despir no corredor e mostrar os vergões que se formaram pelo corpo todo. Faço o que posso para que ele entenda que não aguento mais o incômodo que vinha há uma semana, mais ou menos, me tirando o sono e o sorriso.
Triagem feita. Agora é SÓ aguardar que chamem meu nome. Antes de achar um lugar na saleta de espera, faço minha "inscrição" no Hospital Jean-Talon. A abertura do dossiê é rápida. Às 17h, já estou sentada junto a pessoas com dor e impacientes pelo diagnóstico do médico. Algumas chegaram pelo meio-dia. Outras, pela manhã. Uma mulher jovem, sentada a um canto, sofre. Aparentemente, ela tem pedras nos rins e parece estar grávida. O marido ou namorado ajuda como pode, massageando as costas da companheira.
Um senhor chega à sala com um café em mãos. Olha para o relógio de pulso e pronuncia a hora em voz alta antes de se sentar. Ele vai falar alto e criticar o sistema pelas próximas 7 horas mais ou menos. Até cansar. Tá todo mundo exausto. E eu me arrependendo de ter procurado ajuda. Talvez seria melhor ter tentado aguentar minha crise alérgica em casa, como fiz durante a semana toda.
Às 18h, meu marido decide ir embora. Ele é québécois e sabe que, talvez, com sorte, eu seja atendida por volta da meia-noite. Ele não tem mesmo que esperar ali. Seria bom ter companhia, mas, ao mesmo tempo, só quem realmente precisa é que aguenta ou tenta como pode ficar nesse inferno. Tento estudar para minha prova de segunda-feira na universidade. Não consigo me concentrar.
Ouvem-se os gritos de um homem ao fundo do corredor. E o hospital emite um código que eu não entendo. Muitos enfermeiros e assistentes correm na mesma direção. Uma mulher vomita ali perto, no banheiro do corredor, com a porta aberta. Ouço línguas incompreensíveis naquela Babilônia bagunçada. O senhor do café, supercomunicativo, relata a um casal todo seu histórico médico e reza a cada 30 minutos para que Deus lhe dê paciência. "Mas que faça isso rápido".
É começo da noite de sábado. Já escureceu lá fora. Para o desespero dos que ali na urgência já estavam, mais macas com doentes de todos os cantos de Montréal são trazidas pelas ambulâncias. Elas logo começam a se acumular em fila diante da porta da enfermeira que faz a triagem. Também há policiais que acompanham um dos casos. Acidente de trânsito ou, talvez, uma briga. Não quero saber.
Pelas 22h, essa mesma enfermeira faz uma chamada para confirmar quem ainda está resistindo ali para ver os agora dois médicos (!!!) de plantão. Ela me chama e me apresento. Ela pergunta como estou me sentindo. Respondo que minha crise se agravou. Tenho reação alérgica no rosto. Ela diz que eu posso voltar a me sentar e aguardar.
De volta à "minha" cadeira desconfortável, jogo minha bolsa ao chão. Abaixo minha cabeça e abraço os joelhos. Tenho vontade de chorar. Pouco antes da meia-noite, duas amigas, mãe e filha também gaúchas - e solidárias, chegam à sala onde estou para me fazer companhia. Gabi e Márcia, nunca mais vou me esquecer desse gesto! Muuuuuuuito obrigada.
A gente tenta desopilar, bater-papo, trocar impressões sobre esse sistema de saúde tão caótico num país, dito, de primeiro mundo. Em princípio, o sistema de saúde é gratuito para todos os canadenses e residentes permanentes, como é meu caso. São raras as clínicas privadas. O princípio é de que todos, pobres e ricos, são iguais em situação de doença.
Mas faltam médicos. Muitos diplomados aqui partem para fazer grana nos Estados Unidos. Os doutores imigrantes mais insistentes chegam a passar 15 anos tentando ter o diploma reconhecido. O humor negro representa a situação com a seguinte piada: "Quer um médico? Chama um táxi". Afinal, não são poucos os que abandonaram o estetoscópio pelo volante.
As enfermeiras sobrecarregadíssimas também estão migrando do sistema público para o privado. A mídia vive batendo na mesma tecla: mostra a superlotação nos corredores e denuncia a máquina burocrática que tenta administrar esse sistema. O governo é apático. O filme québécois Invasoes Bárbaras, de Denys Arcand (2003), retrata bem esse caos. Ontem, soube que a imprensa daqui noticiava uma espera média de até 20 horas pelos pacientes nas urgências dos hospitais de Montréal.
Pouco depois da meia-noite, uma enfermeira toda-sorrisos chega a nossa sala para se apresentar. Ela dá a entender que vamos passar a madrugada juntos, mesmo que ela saiba que boa parte de toda aquela gente está há 8, 10, 12 horas esperando. E aí ela descreve o cenário da hora: só há um médico para atender casos de emergência, os acamados e nós. Precisamos ser um pouco mais pacientes e considerarmos que temos chances de ser atendidos somente pelas 5h ou 6h da manhã de domingo.
Mas ela encerra o papo com um comentário, no mínimo, estúpido. Caso alguém não esteja se sentindo bem, pode bater à porta dela. Eu levanto a mão e digo que não estou bem. Ela ri. E todo mundo na sala de espera também.
À 1h30min, depois de nove horas e meia de espera, ouço meu nome ser chamado. Não acredito! Meu coração quase salta pela boca. É como se tivessem gritado BINGO! e eu sou a ganhadora. Solto um ALELUIA! E me levanto rápido em direção ao consultório. Sou medicada.
Reencontro minhas amigas e meu marido pouco antes das 2h. Estou contente e, ao mesmo tempo, me sentindo culpada. Sei que fui atendida antes de outras pessoas que já estavam ali há muito mais tempo do que eu. A gente corre daquele lugar, onde a mulher que suponho ter dor nos rins ainda está escorada a um canto, gemendo de dor. Já o homem do café, esse perdeu a energia para falar. Finalmente, acho que Deus acabou providenciando a paciência pela qual esse senhor passou o dia rezando.
Na próxima vez (que espero que não chegue nunca), já sei: vou chamar um táxi. Eles sempre chegam rápido.
Olha! Acho que o que descreveste aqui deixa claro que, afinal de contas, o tão famigerado 3° mundo é mesmo o Brasil? e adjacentes?
ResponderExcluirÉ de pensar...Ótima matéria. Beijão
Caracas, guria... a gente sempre ouve falar que o sistema de saude eh ruim, mas qdo a gente precisa dele e realmente constata que a coisa nao funciona, se frustra mesmo!!!
ResponderExcluirEspero que tu melhore logo dessa alergia e cuide pra nao ter uma dessas tao cedo... olha o nivel de estresse!!!
Bjo, se cuida e ate sexta!
Gente que horror !!!! E depois ainda alguns têm a capacidade de criticar o sistema de saúde do Brasil. Aqui no Rio, antes de eu ter plano de saúde, estive algumas vezes no hospital Miguel Couto, com o pe torcido e com a horripilante dengue, que deixa você tão mal que nao consegue nem ficar de pe. Nesta ocasião tinha que ir dia sim dia nao, para fazer exames de sangue, pois minha dengue era hemorrágica... Em todas as vezes fui super bem atendido por lá. Nunca esperei mais do que 20 min para tirar sangue e 1 h para o resultado do exame. Tudo de graça. Enfim fiquei espantado com o Canada!!!! Ótimo texto Tais, parabéns ... Bju
ResponderExcluirEsse testemunho é uma prova de quão burros nós, brasileiros, somos. Criticamos tudo em nosso país, até conhecermos a realidade de outro - reconhecido como desenvolvido. Não tenho bronca do Canadá, mas dos brasileiros que não sabem se vender ao mundo. Somos chamados de corruptos, enquanto os governantes estrangeiros, que presenteiam os nossos com o objetivo de obter vantagem em algum tratado internacional, não o são. Somos chamados de vadios, enquanto acordamos cedo para trabalhar, às vezes, mais de dez horas diárias, e ainda com garra vamos estudar na faculdade privada à noite. E os estrangeiros, que ganham mais do que nós, trabalham menos do que nós, acham o cúmulo estudar e trabalhar ao mesmo tempo, são o que?
ResponderExcluirNada contra eles! Absolutamente nada. Eles estão certos. Nós, brasileiros, aqui na terrinha ou fora dela, é que estamos errados. E sabe por quê? Porque aceitamos ter nossa imagem ridicularizada mundo afora. Ou vai dizer que mulher brasileira não é tachada de vadia, prostituta e o brasileiro de malandro e desonesto? Sei que muitos o são, mas e os italianos que vão para Recife comer as criancinhas, são o que? E o que dizer dos espanhóis, traficantes de mulheres brasileiras, que prometem emprego formal e honesto até que no dito país das touradas - digo, que promove a sustentabilidade - hahahaha - são torturadas para se prostituírem?
Ora meus amigos, sejamos éticos. O mais ético de todos é aquele que assume que não o é por completo. Ou vai dizer que existe um ser que, antes de si, se preocupa com o conjunto, com o todo, sempre. Onde está este ser magnífico, altruísta? Ahhh, é verdade...tinha me esquecido dos americanos, ou melhor, dos norte americanos, ou melhor ainda, dos estado-unidenses da américa...esses aí, sim, sabem se vender. Ninguém gosta deles, mas ai de quem fale mau deles. O Weak Leaks divulgou, no dia 22 de outubro de 2010, informações militares dos EUA relativas a guerra no Iraque, um dos maiores vazamentos já ocorridos nas forças armadas deste país - hipócrita por sinal! Isto porque além de ser responsável pela morte de milhares de inocentes em ações racistas, julgou que o Weak Leaks está contribuindo para a insegurança social de todos "americanos" - repetindo, estado-unidenses da américa. Pode? Sim, eles podem, porque sabem se vender. Nós, brasileiros, sabemos apenas sambar,fazer "caipirrinha" e jogar futebol. Mais nada. Um abraço mana, te amo.